Erro na identificação do ID O mercado da informação: entrevista com Ariel Pablos -

19 e 20 de setembro de 2005

18/11/2005

O mercado da informação: entrevista com Ariel Pablos

Ariel Pablos, da Organização Mundial da Saúde, explica o movimento de valorização da informação e do conhecimento

Durante a 4a. Reunião de Coordenação Regional da BVS, o responsável pela área de gestão de informação e conhecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS), Ariel Pablos, falou a este boletim. Em sua opinião, a sociedade está preparada para compartilhar informação, mas ainda é necessário um estímulo inicial por parte das instituições governamentais, não-governamentais e privadas. 

Boletim – Gostaria que o senhor comentasse sobre a dificuldade de gerir o conhecimento e compartilha-lo. A sociedade está preparada para este movimento?

 

Pablos – Há muitas razões do por quê esse movimento tem muito mais chance de ocorrer atualmente com sucesso. Certamente as sociedades estão abertas ao processo e a tecnologia nos dá acesso à informação. Isso está mudando a forma de agirmos, não só no campo da ciência, mas no cotidiano de trabalho e nas comunidades.

Nosso interesse e missão a partir da estratégia da OMS de gestão de conhecimento é diminuir a brecha existente entre o “saber” e o “fazer”. Essa brecha se cristaliza de diferentes maneiras: na evidência científica que não alcança os tomadores de decisão em saúde, em novas tecnogolias que não alcançam os profissionais, ou em indivíduos, que apesar de saberem que não devem fumar, mantem o habito.

É um desafio diminuir essa brecha, mas também uma grande oportunidade. A maioria dos problemas de saúde – especialmente entre as populações mais pobres – são problemas cuja solução nós já conhecemos. Então, compartilhar o conhecimento é parte do trabalho de aumentar a saúde mundial.

 

Observamos vários paradoxos desse movimento de difusão de informação. A informação é tanta que ela, em si, tem um valor baixo, se pensarmos pelas leis de economia de oferta e procura. É muito fácil ter acesso à informação. O "negócio" está em oferecer a informação certa, no momento certo para a pessoa que prcisa dela. Esse serviço terá cada vez mais valor.

 

Por outro lado, o conhecimento que não pode ser digitalizado nem colocado na internet ou num livro, esse conhecimento que reside nas pessoas, que tem um pouco de subjetividade e muito contexto, ganha mais valor nos dias de hoje.

Nos últimos 500 anos,  a ciência buscou o conhecimento chamado "explícito", que se pode comprovar, medir e compartilhar facilmente. Hoje sabemos que não se pode ignorar o conhecimento "tácito" (da experiência pessoal). E agora há uma "corrida pelo ouro" desse conhecimento. Daí não ser surpresa que as empresas privadas e instituições como os exércitos estejam – há dez anos – voltando suas forças para descobrir como explorar esse conhecimento para a inovação e competitividade. 

 

Boletim - E os profissionais de saúde. Estão dispostos a compartilhar esse conhecimento tácito?

 

Pablos - Muito provávelmente. Os gradientes de separação entre a população e os especialistas estão se estreitando. As pessoas têm mais acesso às informações antes reservadas aos especialistas. Entretanto, eles possuem o conhecimento tácito e essa permanecerá sua grande vantagem.

 

Mas começam a formar-se redes de troca de informação. E por que eu vou compartilhar com os outros aquilo que eu sei e que tenho consciência do seu grande valor? Primeiro porque acabamos descobrindo que nunca sabemos tudo. E que uma pessoa se beneficia em compartilhar conhecimento. Além disso, acredite-me, entre os profissionais de saúde, é mais fácil dar uma informação que pedi-la. Somos treinados a saber tudo. E queremos saber tudo. Não temos a humildade de dizer a um colega : "tenho um problema, você pode me ajudar?”

 

Esse pensamento irá mudar. Há a muito valor no que eu aprendo com você. Há valor em pedir ajuda e melhorar uma idéia ou solução existente.

 

Mas você tem razão quando diz que há razões econômicas pelas quais eu não quero compartilhar minha informação. Por exemplo, se sou um traalhador em uma empresa. Enquanto eu tenho uma informação, posso garantir meu emprego. Talvez quando eu compatrtilhar tudo, posso me tornar dispensável. Esse é uma linha de pensamento existente. Algo disso é verdade. Por que a gestão do conhecimento trata também sobre como reter uma informação que pode se perder com a aposentadoria de um funcionário, por exemplo.

Por outr olado, quem compartilha informação se torna centro de redes de conhecimento, tornando-se mais valioso para uma instituição. Não pelo que sabia, mas pelo que ficou sabendo a partir do compartilhar. A razão pelas quais as pessoas compartilham informações são muitas. 

 

O capital não é só financeiro. Há o capital social. E quando você confia nas pessoas e sente certa responsabilidade por elas, você tem tendência a compartilhar. Se você, por outro lado, é obrigado, não compartilha.

O prazer de contribuir, ajudar, criar valor e ser reconhecido é uma moeda forte na economia do compartilhar conhecimento.

 

Boletim - Estamos diante de uma mudança de capital. O capital industrial, social pelo capital do conhecimento? Existe a possibilidade de surgir um novo mercado. O mercado do conhecimento?

 

Pablos - Certamente é muito provável que aconteça isso. Tanto que nas populações de todo mundo nos 20 / 30 anos recentes, o nível de educação subiu. Na África, 80% das crianças estão nas escolas. São vitórias incríveis. Isso faz com que as pessoas tenham capacidade de ler, escrever, entender, expressar-se. Além disso, a internet abre espaço para o acesso à informação.

Ainda existem as democracias / sociedades abertas, nas quais você é importante para o poder econômico de um país. Seu voto, por exemplo, é importante.

Por esses fatores podemos prever um valor muito grande no acesso ao conhecimento. Aumenta a demanda pela informação.

Certamente haverá mercado para o conhecimento tácito. A área de ciência desafortunadamente  baseou-se por muito tempo somente em conhecimentos prováveis e explícitos. Agora, a comunidade científica precisa recuperar o conhecimento social. Aquele de pequenas comunidades que se torna crucial para que as soluções existentes sejam colocadas em prática.

 

Boletim - Esse “mercado” de conhecimento não impedirá os países em desenvolvimento de acessarem e compartilharem informação?

 

Pablos - Isso é o mais bonito do processo. Por muito tempo não demos suficiente atenção ao conhecimento das pessoas nas comunidades. Com a gestão do conhecimento tático isso deve mudar. Não diga, por exemplo, à África como resolver um problema local. Pergunte. Eles têm a resposta e você irá aprender muito. Então você poderá compreender como empoderar as pessoas para que façam acontecer.

 

Agora entendemos que o conhecimento não é um produto que flui dos países desenvolvidos para os outros, e é caro, de alta tecnologia e complexidade e difícil de ser adotado. Mas o conhecimento é uma constelação que se constrói socialmente. Eessa construção acontece em qualquer lugar.

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